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Luteria transforma eucalipto em música

Atenção, precisão e sensibilidade: o olhar do luthier que transforma madeira plantada em instrumento e identidade sonora - Foto: Cenibra

Quando adolescente em Barão de Cocais (MG), Giovani Valentim entrou em uma oficina de luteria sem imaginar que aquele espaço redefiniria sua trajetória. Hoje, aos 30 anos, ele é professor de música, profissão que nasceu dentro do Projeto Luthier – Arte Ofício Cidadania, iniciativa que usa madeira de florestas plantadas para ensinar jovens a construir e tocar instrumentos. “A música abriu portas que eu jamais imaginaria”, conta Giovani.

O projeto, apoiado pela CENIBRA há duas décadas, completa mais de 5.200 alunos e uma missão que vai além da luteria: preservar saberes artesanais, ampliar o acesso à cultura e apresentar alternativas sustentáveis ao uso de madeiras nativas.

Eucalipto como potencial

A luteria brasileira historicamente dependeu de espécies como cedro, jacarandá e imbuia, muitas hoje raras e protegidas. Foi essa realidade que levou o luthier Pedro Alexandrino, idealizador do projeto, a buscar alternativas. “Eu queria trabalhar com madeiras brasileiras, mas ou eram muito caras, ou já não podiam mais ser usadas, ou eram protegidas por lei”, relembra Pedro.

A busca o levou ao eucalipto, até então pouco associado à construção de instrumentos. A experimentação, porém, mostrou potencial. Pedro foi um dos primeiros no Brasil a produzir violas e violões com o material. A jornada técnica não foi simples. “O eucalipto não é um bloco uniforme. Ele varia em genética, densidade, quantidade de nós e resina. Alguns são excelentes, já outros impossíveis de se trabalhar”, explica. Segundo ele, o eucalipto cultivado nas florestas da CENIBRA, por estar em área mais úmida, apresenta densidade menor, característica que favorece a vibração e a clareza sonora.

Romper o preconceito do mercado também foi parte do caminho. “Foi uma mudança técnica grande porque eu tive que abandonar muita coisa e começar de novo, e dá para fazer um instrumento legal, dá para fazer um instrumento de alta qualidade”, afirma. Pedro destaca ainda a resistência natural da madeira a fungos, uma vantagem importante para instrumentos artesanais.

A madeira doada pela CENIBRA se integra a uma lógica de economia circular. É cultivada por meio do manejo responsável e vem de florestas plantadas certificadas, o que garante origem responsável. Ganha novo ciclo ao se transformar em instrumentos, mobiliário da oficina e conhecimento transmitido aos alunos.

Música, técnica e pertencimento

Na viola caipira Giovani preserva a tradição que une gerações – Foto Cenibra

No Projeto Luthier, jovens entre 14 e 18 anos aprendem a tocar antes de construir seus instrumentos. A metodologia prepara o ouvido e a sensibilidade para entender o que o instrumento deve entregar. “A luteria exige paciência, precisão e escuta”, afirma Pedro.

A experiência, porém, vai além da técnica. Gera autoestima, disciplina, identidade cultural e oportunidades profissionais. Ex-aluno e hoje professor, Giovani Valentim resume: “A música abre muitas portas, une pessoas e leva você para lugares inesperados”.

Pesquisa com o Mogno Africano

A nova etapa do projeto inclui testes com mogno africano, espécie plantada que passa a integrar o portfólio florestal da CENIBRA. A análise ainda é inicial, mas segue o mesmo princípio que guiou o estudo do eucalipto: reduzir a pressão sobre madeiras nativas, ampliar o leque de espécies sustentáveis para a luteria e compreender o comportamento acústico, a densidade e a resposta à vibração.

Plantio de mogno africano em Natalândia (MG) integram a nova fase de pesquisas que ampliam possibilidades para o uso sustentável da madeira – Foto: Cenibra

Para José Sawinski Júnior, assessor de Sustentabilidade da CENIBRA, o avanço das pesquisas com o mogno africano amplia o papel das florestas plantadas no desenvolvimento de soluções culturais e tecnológicas. “Para nós, sustentabilidade é olhar para a floresta plantada como um recurso capaz de transformar vidas. Quando essa madeira chega à música e à formação de jovens, entendemos que nossa atuação vai além da produção, ela alcança o desenvolvimento humano e cultural das comunidades”, afirma.

Ainda não há resultados consolidados, pois o processo é de pesquisa. Para Pedro, o movimento é natural. “Eu passei a pesquisar possibilidades de madeiras e comecei a experimentar, lembra ele, ressaltando que conhecer a reação de cada espécie é essencial para transformar madeira em instrumento.

Duas décadas de transformação

A combinação entre cultura, técnica e sustentabilidade fortalece comunidades locais e mantém vivo um saber artesanal em muitas regiões do país. O que começou com um luthier curioso e uma pilha de tábuas tornou-se uma experiência intergeracional. “Tem família tocando, avô, pai, filho e isso cria uma identidade cultural muito forte”, diz Pedro Alexandrino.

Se a madeira de eucalipto antes destinada à celulose, hoje produz música, pertencimento e novas trajetórias, é porque alguém decidiu experimentar o eucalipto e descobriu nele uma sonoridade possível.

Fonte: Cenibra

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